23 novembro 2011

Diário de campanha (1)

Está já em curso a campanha eleitoral para as eleições autárquicas intercalares de 7 de Dezembro. Não podendo estar no terreno, resta-me ler os jornais e, quando possível, ouvir a rádio e ver a televisão, para produzir o tipo de notas que se seguem.
Sondagens. As sondagens eleitorais são instrumentos mágicos. Por quê? Primeiro, porque surgem emitidas por fontes de autoridade, consideradas sagradas, razão por que não precisam exibir o conteúdo integral dos métodos e das técnicas; segundo, porque criam nas pessoas imagens potenciais de vitória ou derrota; terceiro, porque exibem números destituídos de estatutos e relações sociais, como se as pessoas fossem meras entidades neutras colectivamente agregadas. As sondagens surgidas criaram reflexos imediatos: os dados como favoritos não ripostaram, os dados como não favoritos de imediato redarguiram que sondagens não eram realidades.
Espectáculo. Os jornais mostram candidatos exibindo a sua musculatura em comícios e recursos, designadamente viaturas, claques, instrumentos de sopro e percussão, cartazes, panfletos, etc. "O grande actor político comanda o real pelo imaginário", escreveu um dia Georges Balandier. A propaganda eleitoral visa seduzir e dirigir a opinião pública, levá-la a acreditar no imaginário oferecido. O seu fundamento não é o real, mas a imagem que as pessoas são levadas a construir desse real. Uma das ideias subjacentes à teatrocracia eleitoral consiste em levar os leitores potenciais a acreditar e a aceitar o poder do candidato, o seu fausto, a sua grandiosidade, o seu poder de poder. Para gente carenciada, a propaganda-espectáculo é potencialmente hipnótica. Creio que o partido no poder vai à frente nesse tipo de propaganda.
Eleitores-alvo. Pelo menos em Quelimane e segundo o "Diário de Moçambique", os candidatos concentraram as suas atenções nos mais carenciados habitando os subúrbios da cidade. Gostaria imenso de estudar os discursos, de analisar o conteúdo, de conhecer as reacções populares.
(continua)
Adenda: abordo múltiplos aspectos da engenharia eleitoral no seguinte livro: Serra, Carlos (dir), Eleitorado incapturável, Eleições municipais de 1998 em Manica, Chimoio, Beira, Dondo, Nampula e Angoche. Maputo: Livraria Universitária, 1999, 354 pp., confira especialmente pp. 43-243.
Adenda 2: recorde a minha série em 17 números intitulada Poder e representação: teatrocracia em Moçambique, aqui.
Adenda 3 às 8:49: sugiro recorde a minha série em 20 números intitulada Para ganhar as eleições em Quelimane, aqui.
Adenda 4 às 10:29: confira aqui:
Adenda 5 às 14:37: uma fonte de Quelimane informou-me que Lourenço Bico da Frelimo esteve colado ao secretário-geral do partido, Filpe Paúnde, falando com estudantes do ensino supeior em reunião de cerca de 100 pessoas, enquanto Manuel de Araújo do MDM trabalhou no quinto bairro, Namuinho, em contacto interpessoal.

4 comentários:

Salvador Langa disse...

Ora então muito bom dia Professor, aqui estou eu mais cedo hoje. Caramba hoje há aqui muitas coisas para ler. Precisamos ver as autárquicas com outros óculos como aqui propõe. Já leu o que disse o Pio numero 2 lá em Quelimane? Então força aqui no registo das campanhas.

ricardo disse...

Ja nao vemos os responsaveis da Funcao Publica nos seus gabinetes... Os processos estao parados. Campanha e assim. Uma questao de prioridades. O pais que espere por eles!...

TaCuba disse...

Eu gostaria de avaliar em percentagens as promessas feitas como o Matos fez há anos...

izumoussufo disse...

Venham ver em Pemba sobre carros usados na campanha.