Parece ser mais fácil, bem mais visível, analisar um lado da reforma agrária encetada em 2000 (um ano depois do nascimento do MDC) no Zimbabwe, porque aí as coisas surgem a duas cores: os pretos contra cerca de quatro mil famílias brancas. E surgindo a duas cores, o fenómeno desperta uma imensa reacção de brancos e de pretos, dá origem a toda uma pujante adrelanina racializante.
Ora, tudo o que parece, à superfície, sugerir a demência de Mugabe
ao estar optimista e calmo face aos resultados da eleição presidencial de ontem, tudo o que parece ser não é, afinal: na realidade, o optimismo de Mugabe tem razão de ser, Mugabe que é o ícone de uma elite que enriqueceu e tudo fará para proteger os seus privilégios, através de um exército, de uma polícia e de forças para-militares poderosas (tudo leva a crer que hoje é uma
junta militar que governa o país e por isso não nos devemos surpreender com as constantes intervenções de comandantes militares enquanto produtores de opinião no jornal governamental zimbabweano,
The Herald).
Todavia, a elite da ZANU sabe bem - e há muito tempo - que está a ser contestada nacional, regional e internacionalmente. E sabe bem que faz face a uma nova elite, forte e desejosa de chegar ao poder desde 1999, a elite traduzida no MDC e em Morgan Tsvangirai, uma elite que é, de alguma forma, a sucessora indesejável daquela que a ZANU decapitou no tocante aos Ndebele.
Quando Mugabe disse ontem que seria magnânimo com a oposição caso vencesse a eleição, ele limitou-se a dizer que a ZANU estava finalmente disposta a admitir uma partilha de poder que, porém, assegurasse a continuidade do monopólio do partido com uma pequena fatia distribuída ao MDC. Ele sabe bem que o espectro de contestação nacional, regional e internacional é, agora, grande. Por isso, embora estando ainda em posição de aparente vantagem interna, é para a ZANU conveniente recalibrar a correlação de forças, modernizá-la, adaptá-la, criar um semblante de partilha de poder, um governo de unidade nacional que permita a reprodução dos seus privilégios e satisfaça temporiamente a ânsia da elite concorrente, do MDC, um governo de unidade nacional que amorteça a indignação internacional e acalme a tempestade interna, um governo que de alguma maneira trave o efeito da acusação internacional de que o governo a sair da eleição de 27 é ilegítimo.
Sugestão: permita-me sugerir-lhe que leia o Bloomberg aqui. Se quer ler em português, use este tradutor.