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21 Agosto 2014

Acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro (12)

*O que significam acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro, quer dizer, antes das eleições gerais marcadas para esse mês?
*Em 1919, numa conferência, o sociólogo alemão Max Weber disse o seguinte: "O Estado é uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território".
*"Os nossos homens têm armas em todo o país", disse Rahil Khan, acrescentando que o Acordo Geral de Paz (AGP), assinado pela Renamo e o Governo em 1992, permite aos antigos guerrilheiros manterem o armamento.
Décimo segundo número da série. Eis a décima nota sobre o futuro Acordo de Maputo, que deverá ser assinado muito brevemente pelo presidente da República, Armando Guebuza, e pelo presidente da Renamo, Afonso DhlakamaEscrevi, no número anterior, que a amnistia é uma autêntica dupla face de Jano, a face do perdão e a face da impossibilidade do perdão. Muito rapidamente - a rapidez na publicação da lei foi notável -, governo e Renamo (na prática, Frelimo e Renamo) chegaram a um acordo formal de paz (o segundo desde 1992; sobre as suas ambiguidades confira aqui) com várias componentes entre as quais a amnistia para diversos tipos de crimes cometidos - segue-se uma expressão minha - na guerra de baixa intensidade de 2013/2014. Sem dúvida que a amnistia é uma coisa boa pois tem por objectivo último desarmar as mentes armadas, poupando-as aos castigo por seus crimes ou, para usar a linguagem da actualidade, a uma comissão da verdade. A amnistia decretada teve e tem um culto iminentemente político. Em que sentido?

72 anos de Quelimane hoje

Foto enviada por António Zefanias do "Diário da Zambézia". Sobre Quelimane, aqui.

Obter um estado de crença

Toda a investigação, aí compreendida a científica, bem como qualquer modesta pergunta, visa obter um estado de crença, visa essencializar-se. Cada um de nós passa a vida a crer ou a tentar crer. A única função do pensamento é a de produzir a crença e a de eliminar a dúvida. A crença é, na realidade, como defendeu Charles Peirce, uma regra de acção pela qual ajustamos as nossas expectativas à realidade social e natural. A crença é um processo que nos permite passar do desconhecido ao conhecido, da dúvida à certeza, do sofrimento ao bem-estar, do hoje ao amanhã.

20 Agosto 2014

Arúspices

São persistentes os arúspices das entranhas da mania que, pelas trombetas da televisão, têm por costume falar em nome de um povo que não os conhece.

Dói muito

Na bela Avenida Friedrich Engels, cidade de Maputo, zona do Miradouro, os bancos de repouso e respectivos espaldares estão literalmente destruídos. Em alguns casos os suportes de cimento estão rachados. Dói muito ver isso. Entretanto, em vários pontos das "barreiras" anexas prolifera o lixo.

A magia política do helicóptero

Julgo que não há ainda no país um estudo sobre o impacto político do helicóptero no imaginário popular rural quando usado na propaganda eleitoral. Lá onde as privações são múltiplas, o helicóptero deve representar a força fantástica de alguém que tem o poder fazer como os deuses e os espíritos audazes: vencer o convencional, a altura, as tradições, o habitual, as limitações da vida e os próprios pássaros em sua liberdade voadora. Mas não só: o gestor de semelhante fantástico aparelho deve ter a capacidade de inaugurar uma nova era, a era da esperança, da abundância, do consumo. Quem o usa é suposto, afinal, ter o poder divino de poder tudo. Por outras palavras: o voto pode ir - segue-se uma expressão longa e bizarra - para o poder de poder fazer acreditar.

Pensar

A ideia de que há pessoas capazes de ver o que a maioria não vê, capazes de ter a inteligência analítica que nos outros não existe, é de natureza profundamente elitista. Talvez se possa dizer que essa ideia começa quando a divisão social de trabalho liberta certas pessoas das tarefas imediatas da produção e permite que sejam confinadas ao trabalho de pensar.

E entre nós?

Aqui. Agradeço ao RC o envio da referência.

19 Agosto 2014

António Zefanias para o "Dia Mundial da Fotografia"

Jornalista António Zefanias do "Diário da Zambézia" e a sua contribuição para o Dia Mundial da Fotografia que hoje se assinala, com este trabalho que intitulou "Vendedor de pão".

Trabalhos farmacológicos e médicos sobre Moçambique

Confira 4.317 entradas de resultados de pesquisa farmacológica e médica sobre Moçambique, aqui.

Sobre o acordo de paz

O acordo de paz entre a Renamo e o governo foi publicado pela imprensa moçambicana no fim-de-semana e é inesperadamente vago - deixando muitos problemas para futuras negociações - segundo o Mozambique 269 editado por Joseph Hanlon aqui.

Índice Global da Paz 2014

De acordo com 22 parâmetros qualititativos e quantitativos, aqui.

Prismas

Passou-se há dias algo em Palma, leia o quê e como isso foi descrito no portal do "Centro Terra Viva" e no "domingo" digital respectivamente aqui e aqui.

Um título

Aqui (obrigado ao RC pelo envio da referência)

As duas faces de Jano

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

18 Agosto 2014

Acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro (11)

*O que significam acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro, quer dizer, antes das eleições gerais marcadas para esse mês?
*Em 1919, numa conferência, o sociólogo alemão Max Weber disse o seguinte: "O Estado é uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território".
*"Os nossos homens têm armas em todo o país", disse Rahil Khan, acrescentando que o Acordo Geral de Paz (AGP), assinado pela Renamo e o Governo em 1992, permite aos antigos guerrilheiros manterem o armamento.
Décimo primeiro número da série. Eis a nona nota sobre o futuro Acordo de Maputo, que deverá ser assinado muito brevemente pelo presidente da República, Armando Guebuza, e pelo presidente da Renamo, Afonso DhlakamaEscrevi, no número anterior, que a amnistia é uma autêntica dupla face de Jano. Autêntica dupla face de Jano por quê? Porque, efectivamente, tem duas faces: a face do perdão e a face da impossibilidade do perdão.

Sobre a moda feminina

Texto 1
Permitam-me algumas hipóteses sobre o vestuário feminino urbano-público na cidade de Maputo, na expectativa de que me corrijam. Por regra, as jovens têm nas jeans o seu símbolo identitário indiferenciado, ficam "todas iguais", ao que acresce o cabelo importado da Índia ou as mechas. Naturalmente que o celular ou a tablete é o fecho da abóboda. Quando chegam aos 40/50 anos, quando perdem o viço da juventude e engordam, começam a recorrer aos vestidos pesados, de cores quentes (azul, vermelho, verde). Raramente a capulana - frequente nas zonas periurbanas e rurais - é parte habitual do vestuário público. Em casa, em zona familiar, parece que sim, mas não tenho qualquer ideia sobre a frequência disso. Porém, quando chegam a ministras ou a deputadas, por exemplo, mulheres há que se dedicam a reforçar a sua africanidade, como se - para adaptar Wole Soyinka - como africanas precisassem mostrar que o são. Daí o recurso a lenços espampanantes na cabeça, a capulanas preparadas para causar efeito óptico imediato, tudo, enfim, para ostensivamente causar impressão e permitir entrada nas fotos jornalísticas. O que pretendo dizer é que a moda com raízes africanas, em toda a sua versatilidade - aí compreendido o penteado -, não é parte integrante generalizada dos recuros femininos urbano-públicos da cidade de Maputo, essa moda que encontramos nas mulheres da África ocidental.
Texto 2
Tenho para mim que as mulheres mais belas e melhor vestidas de África são as senegalesas. Quantas vezes, no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, eu me sentava esperando os passageiros oriundos de Dakar, via Air Africa! E lá vinham elas, as mulheres, andar lento, íntimo e doce, ao mesmo tempo feminino e dominador, vestidas com maravilhosas capulanas, com turbantes não menos maravilhosos, sorrindo sempre, uma espantosa síntese das culturas africana e árabe. E, coisa sublime, se todas me pareciam sempre iguais no fino traço de serem belas e belamente vestidas, cada uma se distinguia sempre das outras no vestir, pelo modelo da capulana, pelas cores, pelos motivos estampados. Nada de excesso, tudo etéreo, tudo de um bom gosto exemplar. Penso que em Moçambique as mulheres que mais se aproximam de senegalesas são as de Pebane, na costa. Se me perguntarem com que dados, variáveis e medidas faço semelhante tipo de afirmações, respondo-vos que, de vez em quando, tenho o direito de trocar a razão pela emoção e, finalmente, de defender os meus postulados estéticos, rigorosamente anti-estatísticos.
Texto 3
Sejam quais forem as suas modalidades modernas, a capulana de Moçambique mais não é, em meu entender, do que uma descendente do antigo bertangil (ou bertangim), tecido de algodão vermelho e azul fabricado na Índia (Surate, Cambaia, Diu e Damão), que serviu, até, como moeda. O protótipo da capulana é anterior ao século XIX e creio que começa a afirmar-se na segunda metade do século XVIII. Todo o comércio colonial em Moçambique assentava em dois artigos básicos: o chamado pano (mais tarde bertangil, vindo da Índia) e a missanga (especialmente vinda de Veneza na gestão colonial portuguesa). A actividade mercantil ligada aos tecidos, na sua extensão e profundidade, foi sempre menos actividade de Portugueses, do que de Indianos. Por hipótese, foram os tecidos indianos que contribuíram para a decadência da indústria local das famosas machiras zambezianas, panos de fio grosso (por vezes também fino) fabricados a partir de algodão localmente cultivado, estando a fiação e a tecelagem a cargo dos homens ainda no século XIX.

Acordo de Maputo: como desarmar cientifica e culturalmente as mentes? (4)

Quarto número da série. Aproxima-se rapidamente o que chamo Acordo de Maputo, o qual irá suceder ao Acordo de RomaApós a grande guerra de alta intensidade de 1976/1992 e a pequena guerra de baixa intensidade de 2013/2014, o novo acordo de paz requer bem mais do que ministros, juristas e militares. Já escrevi haver necessidade da presença permamente de corpos de cientistas sociais que tenham por missão (1) criar as bases para uma saúde mental efectiva através da psicotraumatologia e da sociotraumatologia dos dois conflitos e (2) criar condições para a produção de fóruns públicos de apresentação e debate dos resultados das pesquisas nos campos atrás mencionados. Mas não só, importa ainda responder a esta pergunta: como desarmar culturalmente as mentes? Ora, a nossa cultura possui o registo histórico, muito antigo, de todo um corpo cerimonial profiláctico destinado a apaziguar os espíritos, a amortecer e a desviar o impacto do ódio e da dor, a tentar a efectivação dos caminhos do diálogo. Esse cerimonial foi reactivado, aqui e acolá, após 1992. É, certamente, oportuno repô-lo.

O problema da mudança

Não é por acaso que, ao nível das biografias, por exemplo, ficamos sempre perplexos quando alguma coisa muda ou mudou no comportamento de alguém. Dois ou três traços de personalidade chegam para fotografar para sempre o actor X. Teremos tendência em vê-lo como ele era há vinte anos atrás, por exemplo. A mudança significa uma desordem, um desajuste, um mal-estar nos nossos quadros perceptivo-conceptuais.

17 Agosto 2014

Café puro de Manica

A minha Colega e Amiga, Teresa Manjate, trouxe-me café puro de Manica. Uma perfeita delícia.

Os piripiris de Dona Mariana

Ali no Centro Comercial Super-Marés, rés-do-chão, cidade de Maputo, Dona Mariana vende uma coleção de piripiris intitulada "Hot Lips" (incluindo achares), produção caseira de senhoras de Chamanculo e Matola - informação de Carlos Serra Jr.
Observação: parece que o nosso piripiri é feminino. Assim, temos marcas comerciais como Dona Rachida e Dona Ana, piripiris (incluindo também achares) produzidos em Inhambane.
AvaliaçãoAcabo de provar os "lábios quentes" piripiri mesmo e "lábios quentes" achar de limão. Sobre o primeiro: piripiri bem mais fraco que o Dona Ana e o Dona Rachida (produzidos em Inhambane), óleo a mais, alho agradavelmente colocado e uma especiaria que ainda não identifiquei. Sobre o segundo: mistura perfeita, nada de excesso no picante, limão bem amolecido. Avaliação para ambos: agradável, sem excesso, óleo a retirar no primeiro caso. Não se trata de piripiri sacana, absolutamente não é. Saibam que faço as provas gustativas colocando os produtos em colheres e provando-os por inteiro, sem...intermediários. Quem já me viu comer piripiri sabe disso. Finalmente: excelente e sóbria a combinação dos frascos e das coberturas em papel florido, faz lembrar o exterior das compotas portuguesas, francesas e sul-africanas.

O que é importante?

Às 11:10, hoje, na cidade de Maputo, duas senhoras jovens atravessaram a 24 de Julho no sentido Restaurante Piripiri/Polana Center, cada uma de balde à cabeça com seis abacaxis em cada um para venda, às costas de cada uma uma criança embrulhada na capulana. Sois capazes de me dizer o que é, afinal, importante na vida e nos órgãos de informação?

Não há lugar para a surpresa

Lá onde a privatização é galopante, lá onde se faz a sistemática e pública apologia dos negócios, lá onde se louva permanentemente a riqueza material, lá onde se promove o enriquecimento, lá onde isso sucede não há lugar para a surpresa e para a dor quando professores vendem provas, médicos estipulam preços de operações cirúrgicas e rapinantes públicos e privados de todos os azimutes pilham os recursos do Estado.

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Segue-se um extracto reproduzido da edição 1075, de 15/08/2014, disponível na íntegra aqui:
Notas: de vez em quando um leitor queixa-se de não conseguir baixar o semanário "Savana" neste diário. Só tem de executar os seguintes três passos: clicar no "Disponível na íntegra aqui" da postagem, a seguir no "Baixar" do programa 4Shared e, a terminar, no "Baixar grátis" também do programa. Por outro lado, de vez em quando também me perguntam por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.

16 Agosto 2014

Trabalhos científicos sobre Moçambique

Milhares de trabalhos científicos sobre Moçambique, consulte este portal aqui.

Cultos de personalidade

Certas pessoas deixarão de ser politica e sistematicamente cultuadas dentro de algum tempo. Mas enquanto isso não sucede, multiplicam-se a seu respeito os derradeiros exercícios cultuais de personalidade enquanto novos cultos estão já em curso para outras pessoas, com exércitos de intelectuais de serviço em afanosas tarefas de parceria com demandantes de emprego.

Décimo número da coleção "Cadernos de Ciências Sociais"

"Estão as línguas nacionais em perigo?" - eis o tema-pergunta do décimo número da coleção "Cadernos de Ciências Sociais" (por mim dirigida), da Escolar Editora, em preparação, com autoria de Cristine Severo do Brasil,  Bento Sitoe de Moçambique e José Pedro de Angola.  O número será entregue à editora no dia 05 de Setembro. Recorde a coleção aqui.

15 Agosto 2014

Cabelo e unhas

É impressionante a facilidade e a frequência com que muitas mulheres da cidade de Maputo preferem usar cabelo importado da Índia a fazer uso e a trabalhar o seu cabelo natural. É impressionante a facilidade e a frequência com que muitas mulheres na cidade de Maputo preferem usar enormes unhas postiças em lugar de fazer uso e de aprimorar as suas próprias unhas.

Proximamente

Acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro (10)

*O que significam acordo, Estado e paz no Moçambique pré-Outubro, quer dizer, antes das eleições gerais marcadas para esse mês?
*Em 1919, numa conferência, o sociólogo alemão Max Weber disse o seguinte: "O Estado é uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um determinado território".
*"Os nossos homens têm armas em todo o país", disse Rahil Khan, acrescentando que o Acordo Geral de Paz (AGP), assinado pela Renamo e o Governo em 1992, permite aos antigos guerrilheiros manterem o armamento.
Décimo número da série. Eis a oitava nota sobre o futuro Acordo de Maputo, que deverá ser assinado muito brevemente pelo presidente da República, Armando Guebuza, e pelo presidente da Renamo, Afonso Dhlakama. Escrevi, no número anterior, que as guerras terminam, mas as representações sociais que as acompanharam e enquadraram podem perdurar por muito tempo. Na verdade, o aguilhão pode ser tenaz. Uma outra formulação: as condições sociais geradoras de representações sociais de um certo tipo podem desaparecer sem que estas últimas desapareçam. Um grande esforço pode ser necessário para desarmar o seu aguilhão gerador, seja ao nível dos contendores directos, seja ao nível dos seus intelectuais de serviço. Se se aceitar que a formulação do problema, tal como foi apresentada, faz sentido, permitir-me-ei passar ao ponto seguinte, o da amnistia, autêntica dupla face de Jano. Autêntica dupla face de Jano por quê? Aguardem o seguimento.

Aviso aos oportunistas eleitorais

Extraído do "Diário da Zambézia" 1771 com data de hoje.
Observação: até agora julgo que nenhuma fonte muçulmana fez o mesmo aviso em relação àqueles que, em propaganda política, sendo católicos, tentam passar por muçulmanos especialmente com suas garridas vestes ostensivas.

Três racionalidades na terra do carvão

Extraído de: Serra, Carlos, Observar, sentir, analisar. Maputo: Escolar Editora, 2014, pp. 127-129
Em Moatize, pátria do carvão a cerca de 20 quilómetros da cidade de Tete, alvo das multinacionais, um havido avião mágico – prosaico boneco de trapos com ar estranho -, supostamente usado para transporte nocturno de feiticeiros, aterrou dia 31 de Dezembro de 2012 no quintal de um jovem casal. Momento de grande azar para o casal, pois o marido perdera o pai em Setembro e a carta de condução já em Dezembro, enquanto a esposa abortara em Agosto. Esta foi a terceira vez que um avião mágico aterrou na vila, os habitantes estão de novo preocupados.
Há que queimar o avião de 31 de Dezembro, sentenciou um ancião. Por sua vez, a polícia entendeu que não havia crime, o fenómeno não tinha enquadramento no código penal, o assunto devia ser tratado pelo “médicos tradicionais”, por outras palavras, pelos curandeiros. Enquanto isso, o secretário do bairro afectado apontou o dedo acusador aos curandeiros malawianos e prometeu que o seu executivo iria promover uma campanha em todos os quarteirões da vila de apelo à vigilância.
O ancião mencionado é o veículo da racionalidade popular; a polícia exemplifica a racionalidade estatal; finalmente, o secretário do bairro é o porta-voz da racionalidade da mão estrangeira.
A racionalidade popular aqui em causa tem a ver com regras de inferência. O surgimento do avião nada tem a ver, localmente, com irracionalidade ou com ilógica. Trata-se de uma crença colectiva numa relação ao mesmo tempo de intencionalidade e de causalidade, relação que faz sentido para aqueles que nela acreditam. De nada servirá sustentar que estamos perante uma crença objectivamente falsa. Na verdade, a crença é subjectivamente sentida como legítima, como verdadeira, quer como intenção, quer como causa. Como intenção, na medida em que se acredita que o avião foi prepositada e mágicamente construído para provocar efeitos maléficos; como causa, na medida em que não importa que fenómeno desagradável ou dramático ocorra no período de aterragem do avião, será imediatamente havido como consequência natural da força maléfica.
Perante o avião invasor e atemorizante para certos círculos de Moatize, eis a posição do Estado veiculada através da polícia: "(...) as autoridades policiais consideram que a presença de “avião tradicional” não é crime, porque não tem enquadramento no código penal. Poderia ser crime se no interior houvesse um nado-morto ou algum membro do corpo humano, conforme avançaram, acrescentando que o fenómeno só pode ter interpretações a partir dos médicos tradicionais, por se tratar de factos meramente mágicos."
Tal como exemplifiquei através do depoimento mostrado no número anterior pertencente ao porta-voz da polícia, o Estado colocou-se formalmente à margem do que chamou "fenómenos mágicos". Na verdade, perante esse tipo de fenómenos, aparelhos do Estado têem por regra encaminhá-los para a Ametramo.
Por outras palavras, através do seu representante, no caso vertente a polícia, o Estado colocou uma fronteira rígida entre visibilidade e comprovação material e crença nas forças do invisível. Sem dúvida que os polícias individualmente considerados podem acreditar (e acreditam, muitas vezes) nessas forças, mas o Estado formal exige que essa crença fique na penumbra.
Passo à terceira racionalidade.
Quem foram os obreiros de tão malévola acção? O secretário do bairro onde aterrou o misterioso avião não teve dúvidas: foram os curandeiros malawianos. Estes pérfidos seres merecem cuidado e por isso o secretário prometeu que iria desencadear uma campanha em todos os bairros da vila de Moatize para que as pessoas pudessem estar vigilantes. Esta, a racionalidade da mão estrangeira.
Qualquer das racionalidades fez e faz sentido para os seus defensores e, provavelmente, podem ter dado origem a combinações.