Blogue seleccionado em 2007 e 2008 pelo júri do The Bobs da Deutsche Welle - concurso internacional de weblogs, podcasts e videoblogs - como um dos dez melhores weblogs em português entre 559 concorrentes (2007) e um dos onze melhores entre 400 concorrentes (2008). Entrevista sobre o concurso de 2008 no UOL, AQUI.
Para todas e todos vós, para as vossas famílias, os meus votos de um feliz 2015, habitado pela saúde. Sintam-se bem e regressem sempre. Índico abraço.
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30 janeiro 2015

Renamo: desobediência civil como estratégia política (1)

O objectivo nesta série consiste em colocar algumas hipóteses sobre a desobediência civil como estratégia política da Renamo. Para o efeito proponho o seguinte sumário orientador:
1. Definição de desobediência civil
2. Objectivos estratégicos
3. Níveis de operacionalização:
  3.1. Dhlakamização da Renamo
  3.2. Cesarismo
  3.3. Populismo
4. Povo-escudo dos comícios
5. Dilemas políticos da PGR e do Estado

29 janeiro 2015

Novo questionário

No lado direito deste diário encontra-se um novo questionário com o título em epígrafe, participável até 29 de Março aqui.

Renamo: desobediência civil como estratégia política

Tete: da docência à mineração

Segundo o reitor da Universidade Zambeze, professores da sua instituição trocam a docência por empregos nas empresas mineradoras. Se não fossem os professores cubanos a Faculdade de Ciências de Saúde em Tete dificilmente funcionaria. Aqui.

Uma coleção disponível em Maputo

Amplie a imagem clicando sobre ela com o lado esquerdo do rato.

Blogue de Yanis e observação

"A democracia grega escolheu parar de avançar calmamente para a escuridão. A democracia grega escolheu revoltar-se contra a morte da luz". Aqui.
O novo ministro da Finanças da Grécia,Yanis Varoufakis, tem um blogue, aqui.
Observação: um pouco em jornais, redes sociais digitais e blogues, Yanis Varoufakis aparece rotulado como marxista. Parece que o fundamental para certos círculos de opinião não é o conjunto de ideias de gestão económica de Yanis, mas o facto dele ser marxista. Passa, assim, a ideia de uma anormalidade, de um fenómeno espúrio, de uma malignidade, tão ao gosto dos sistemas e dos produtores neoliberais das teorias almofadadas. Perante os Yanis do planeta, nervosos ficam os mandarins do verbo nefelibata, os intelectuais medíocres do nem-nem, os seminaristas da razão nem-direita-nem-esquerda, os comentadores iluminados, os adoradores da neutralidade, enfim os fiéis de Sancho: “Sancho não quer que dois indivíduos estejam 'em contradição', um com o outro, como burguês e proletário […], ele desejaria vê-los entrar numa relação pessoal de indivíduo para indivíduo. Não considera que, no quadro de uma divisão de trabalho, as relações pessoais tornam-se necessariamente, inevitavelmente, relações de classes e se cristalizam como tais; assim, todo o seu palavreado reduz-se a um voto piedoso que pensa realizar exortando os indivíduos dessas classes a expulsar do seu espírito a ideia das suas 'contradições' e dos seus 'privilégios' particulares […] Para destruir a 'contradição' e o 'particular', bastaria mudar a 'opinião' e o 'querer'. […] - Marx, Karl, Idéologie allemande. Paris: A. Costes, 1947, Œuvres Philosophiques, tome IX, p. 94 [Marx ataca Max Stirner (1806/1856), filósofo alemão.]

Striptease

A matriz que organiza o corpo em função de um certo tipo de nudez e segrega a sexualidade de mercado tem no striptease a sua coluna vertebral. O striptease permite dois movimentos de erotismo: a sexualização no primeiro movimento, a dessexualização no segundo movimento.
Ambos são totalmente criação androcêntrica. O primeiro movimento é constituído pelo conjunto de signos destinados a despertar o público para a nudez feminina, de par com a música e com os movimentos eróticos da mulher. O início do desnudamento do corpo da mulher é a antecâmara do sexualismo de circo produzido pelo homem. O cabaret, antónimo do lar, é o veículo subversor do conjunto que é a mulher, em favor unicamente da sua sexualidade - como diria Roland Barthes, da "nudez como vestuário natural da mulher".
O segundo movimento completa e inutiliza o primeiro pelo excesso, pela ênfase. O ritual do striptease acaba, afinal, por "dessexualizar a mulher no próprio momento em que é despida", para usar, de novo, uma imagem de Roland Barthes. Cenário, acessórios e estereótipos mostram a nudez para melhor a fazerem esquecer, confinando-a ao mundo do espectáculo.

Analisar

Analisar é procurar criar uma fronteira entre o cidadão que maneja e emprega diariamente as categorias de valor e o analista que procura estudar os fenómenos independentemente de serem bons ou maus, de apreciar ou não a sua natureza e os seus problemas.

28 janeiro 2015

Poder motorizado e despesismo

"O Presidente da República, Filipe Nyusi, prometeu ontem, no seu primeiro discurso à nação, formar um Governo prático e pragmático, orientado por objectivos de redução de custos e no combate ao despesismo." Aqui.
Tanto quanto posso avaliar em partes da cidade de Maputo, não parece ter havido ainda contenção de despesas no poder motorizado estatal. Sobre esse poder, permitam-me recordar-vos parte de um texto meu divulgado através de uma série neste diário:
"Este é um dos grandes pulmões do poder político, parte integrante do espectáculo do poder expondo-se através da viatura último modelo, do ruído marcante, do aparato policial. [Não me interessa aqui o poder motorizado particular do gestor do poder político, o uso privado de viaturas. Interessa-me, sim, a espectacularidade do poder motorizado oficial, desse espantoso poder a grande velocidade que abre caminho através do carro policial da sirene, acompanhado pelas luzes de aviso, protegido pelos agentes de segurança, servido pelas ordenanças. Quanto mais importante o cargo do chefe, mais aparatoso é o poder motorizado. Mas a alma do aparato ultrapassa, afinal, as regras da hierarquia. Mesmo se numa capital provincial de pouco tráfego, mesmo se na sede distrital, o chefe e o sistema tudo fazem para se anunciarem, a visibilidade é de regra. Quanto mais aparato, mais poder genuíno exposto. É imperativa a velocidade, há tenebrosos inimigos à espreita? Creio que o fundamental do poder a expor não reside nessa pergunta, mas nesta: como mostrar que estou em primeiro lugar, que sou elite, que sou puro poder, poder absolutamente não miscível, poder fundador, poder infinito?" Aqui.

27 janeiro 2015

Moçambique encomendou mais três lanchas rápidas HS132

Confira no portal Navy Recognition, aqui.

Produção de heróis e mártires para a Renamo (8)

Oitavo número da sériePor que tenta a polícia transformar António Muchanga em herói? - esta foi uma pergunta formulada pelo jornalista Paul Fauvet aqui. Essa pergunta é o pretexto para esta série, que hoje termina. Prossigo com as hipóteses. Já escrevi sobre a produção de heroísmo e de messianismo em relação a Afonso Dhlakama. Falta agora escrever um pouco sobre a produção de martirismo no tocante a António Muchanga, porta-voz do presidente da Renamo, conforme prometido aqui. O Sr. Muchanga já foi detido duas vezes, uma o ano passado, outra este ano. A incitação à violência esteve na base das duas detenções, sendo a segunda detenção claramente ilegal pois não fora levantada a sua imunidade como membro do Conselho de Estado. As duas detenções foram motivo para, em certos círculos de opinião, ocorrer de imediato a transformação de António Muchanga em mártir da democracia, em vítima da violência política adversária. Temos, assim, de Dhlakama a Muchanga, um largo espectro politicamente construído no sentido de questionar permanentemente a validade do Estado e de legitimar não importa que apologia da violência política. Esse espectro contempla a defesa ostensiva (1) do exército privado da Renamo e (2) das múltiplas declarações de promoção de violência política, de ameaças castrenses e de separatismo regional. O Estado aparece como instigador da injustiça, a Renamo como pobre vítima. Longe parecem os tempos descritos e analisados por exemplo aquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaqui e aqui(mapa abaixo reproduzido com a devida vénia daqui)
Adenda: leia o rescaldo da 91.ª ronda das negociações entre Estado e Renamo, ontem ocorrida, aqui.

26 janeiro 2015

Governantes e interesses empresariais - texto do CIP

"Analisando o perfil profissional e a experiência dos membros do governo recentemente formado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, constata-se que grande parte dos governantes tem interesses empresariais em diversos sectores de actividade económica, o que torna urgente e pertinente a declaração do respectivo património por parte destes." - um texto de Baltazar Fael e Edson Cortez no boletim 14/2015 do "Centro de Integridade Pública", aqui.

Sobre a pequena mão de Deus

De uma entrevista de 2009: "Não é saudável que vitórias possam surgir no imaginário popular como se obtidas com o aval de uma pequena mão de Deus. Creio que uma solução boa seria a de termos uma Comissão Nacional de Eleições efectivamente distante das filiações partidárias, plenamente profissional, o que, convenhamos, não é nada fácil. E com regras transparentes, acessíveis a todos, consultáveis a qualquer momento. Creio que estas são tarefas inadiáveis e urgentes." Aqui.

No "Savana" 1098 de 23/01/2015, p.19

Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do ratoNota: "Fungulamaso" (abre o olho, está atento, expressão em ShiNhúnguè por mim agrupada a partir das palavras "fungula" e "maso") é uma coluna semanal do "Savana" sempre com 148 palavras na página 19. A Cris, colega linguista, disse-me que se deve escrever Cinyungwe. Tem razão face ao consenso obtido nas consoantes do tipo "y" ou "w". Porém, o aportuguesamento pode ser obtido tal como grafei.
Adenda: também na rubrica Crónicas da minha página na "Academia.edu", aqui.
Adenda 2 às 04:46: o boato da bílis letal de crocodilo chegou também a Nampula, fazendo fé no "Wamphula Fax" de hoje (recorde ainda aqui):

25 janeiro 2015

O seccionismo regional de Dhlakama/Renamo

Segundo a "Lusa" citada pelo "SapoNotícias", o presidente da Renamo abandonou a ideia do governo de gestão e faz agora finca-pé na autonomia governativa da região compreendida pelas províncias de Sofala, Manica Tete, Nampula, Zambézia e Niassa. Aqui.
Adenda: sem resposta do Estado ao seu governo de gestão, o presidente da Renamo enveredou agora pelo seccionismo regional. Como escrevi neste diário no dia 04, "o que se passa é a transposição da guerrilha física (na qual por muitos anos ele foi e continua a ser o comandante) para a guerrilha discursiva, simbólica. A guerrilha discursiva, simbólica, replica a coluna vertebral da guerrilha física, na qual a irregularidade permanente, versátil, do guerrilheiro, faz face à regularidade do exército estatal." Aqui.
Adenda 2 às 12:13: Dhlakama multiplica-se em comícios e visitas, obtendo sempre grande visibilidade mediática com o seu discurso populista. Finalmente, parece que já autorizou que os 89 deputados do seu partido ocupem os seus lugares na Assembleia da República.
Adenda 3 às 06:37 de 26/01/2015: segundo o "Wamphula Fax" de hoje, a propósito da visita de Dhlakama à província de Nampula: "Para o líder da Renamo, a operacionalização do seu projecto político de criação de “regiões autónomas” de Centro e Norte, onde ele e seu partido teriam conseguido maior número de votos nas eleições gerais de 15 de Outubro findo, vai acontecer “só se for necessário”, isto é, “se as negociações actualmente em curso entre o governo da Frelimo e a Renamo, falharem” [...].

Chitima e a lenda/boato da bílis letal de crocodilo (7)

- "Gente idosa e residente em Chitima acredita que nas mediações daquele povoado há rios povoados por Crocodilos e que apesar deste animal ser de difícil aquisição, um experiente premeditou este acto, tendo colhido e devidamente conservado partes de bílis deste animal, com o intuito de dizimar vidas. Esta asserção vem ao de cima por experiências amargas do passado e que virou lenda naquele povoado!" Aqui.
- "Na tragédia actual em Moçambique, não posso imaginar quanta bílis seria necessária para adicionar a 210 litros de cerveja de maneira a causar muitas mortes." Aqui. (agradeço ao RC o envio desta referência)
Sétimo número da série. Finalmente, passo à terceira e última pergunta sugerida aqui, a saber: Se a crença é subjectivamente sentida como verdadeira, qual a razão ou quais as razões?  Nas condições sociais que são as suas (fraco domínio das relações sociais e naturais), as pessoas de Chitima (e não só daqui) fazem do crocodilo uma espécie de chave-mestra que abre todas as fechaduras sociais do Perigo, do Mal e das Trevas. Dispensam a evidência empírica, basta-lhes a crença, uma crença que opera como causa que faz sempre sentido. Esta é uma mera hipótese. Hipótese que se aplica, também, a todos aqueles que, em jornais, redes sociais e blogues, adoptaram - por inteiro ou como possibilidade - a malévola bílis crocodilácia como causa da tragédia de Chitima.
Adenda: entretanto, leia a produção de um boato sobre água envenenada na cidade de Tete, aqui.

As verdadeiras chaves do social

Quanto mais insistimos nos aspectos fora de comum, na superfície dos fenómenos (a este nível com um forte pendor psicologizante), quanto mais ênfase damos ao espectáculo de coisas, mais escondidas ficam as verdadeiras chaves do social. Desta maneira, aspectos considerados perturbadores da realidade social são travestidos em aspectos inócuos, destituídos de vida própria ou convertidos em preceitos morais, desta maneira a pasteurização social elimina os "microorganismos patogénicos" sociais.

Árvores

Um dos grandes problemas é discutirmos pessoas e não os sistemas nos quais vivem; é discutirmos os méritos ou deméritos individuais e não a estrutura dos sistemas nos quais têm as suas vidas e constroem os seus pensamentos; é discutirmos árvores e não florestas.

24 janeiro 2015

Isso não vai suceder

No ano passado escrevi uma série cujo penúltimo parágrafo foi este: "No caso de a Frelimo ganhar as eleições presidenciais e legislativas de 2014, teremos, por hipótese, durante pelo menos cinco anos, um omnipotente presidente da luta de libertação à testa de tudo através do partido e um presidente das gerações pós-independência à testa do Estado, em posição vincadamente subalterna." Aqui.
Observação: segundo o "SapoNotícias" citando a "STV", o veterano Sérgio Vieira da Frelimo entende que o presidente da República, Filipe Nyusi, devia ser também o presidente do partido. Aqui. Defendo que isso não vai suceder tão breve, por duas razões: primeiro, porque Nyusi está num modesto 139.º lugar na lista dos 197 membros efectivos do Comité Central da Frelimo, confira aqui. E, claro, não é membro da Comissão Política. Segundo, porque sendo Nyusi o primeiro Chefe de Estado a inaugurar as gerações pós-independência, será rigorosamente monitorado pelos pais fundadores da luta de libertação nacional em geral e por aqueles que se encontram na Comissão Política em particular. Por outras palavras, Nyusi está em provas de exame, que podem durar anos, Armando Guebuza (presidente do partido Frelimo) e a Comissão Política são os membros do júri. Que tipo de provas de exame? As relacionadas com fidelidade partidária e as relacionadas com criatividade estatal moderada.
Adenda às 19:49: a monitoria será tão mais apertada quão - na disputa por recursos de poder e prestígio - mais agressiva se apresentar a Renamo enquanto memória do passado castrense e mais diligente se apresentar o MDM enquanto partido civil do futuro.

"À hora do fecho" no "Savana"


Na última página do semanário "Savana" existe sempre uma coluna de saudável ironia que se chama "À hora do fecho". Naturalmente que é necessário conhecer um pouco a alma da vida local para se saber que situações e pessoas são descritas. Seguem-se dois extractos reproduzidos da edição 1098, de 23/01/2015, disponível na íntegra aqui:
Nota: de vez em quando perguntam-me por que razão o ficheiro está protegido com senha e marca de água. Resposta: para evitar que os ávidos parasitas do copy/paste/mexerica o copiem, colocando-o depois no seu blogue ou na sua página de rede social digital com uma indicação malandra do género "Fonte: Savana". Mas, claro, um ou outro é persistente e consegue transcrever para o word certos textos, colocando-os depois no blogue ou na rede social, mas sem mostrar o verdadeiro elo. Mediocridade, artimanha e alma de plagiador são infinitas.